Matrimonio Hoje


“O QUE DEUS UNIU”

 


Gustave Thibon


 

 


Capítulo III :
AMOR E CASAMENTO


 


A ESCOLHA

 

Não pretendo ensinar
aqui a arte de escolher cônjuge, tal como outros se gabam de ensinar a arte de
se defender na rua ou de ganhar na bolsa. Não tenho receitas práticas para
este fim. Um casamento (e refiro-me às uniões mais refletidas) está
condicionado por tantos acasos (acasos de situações, de encontros, de fortuna,
de sentimentos etc.) que seria ridículo ingressar nestes domínios armado de
regras matemáticas. De resto, a escolha humana está rodeada de uma tal
obscuridade que aquele que tenha a pretensão de fazer uma escolha definitiva,
aquele a quem paralisa uma idéia excessivamente precisa da «alma gêmea» se
arrisca bastante, ou a nunca mais se casar, ou a fazer uma escolha absurda,
uma dessas escolhas «que nunca se poderia imaginar» como diz La Fontaine, como
a experiência nos revela todos os dias. «Em toda a parte tenho conhecido
compradores cautelosos ― escreve, não sem um certo exagero, Frederico
Nietzsche ― mas mesmo o mais esperto acaba por comprar a mulher a olho». Mesmo
nas uniões mais clarividentes, há um aspecto de salto no desconhecido, de
«pari», no sentido pascaliano da palavra. Deste modo, as poucas indicações
gerais que vou dar sobre este assunto não visam fornecer certezas, mas simples
probabilidades.

 

Um dos problemas
primordiais que se põem para a escolha de um cônjuge é o problema biológico.
Da saúde dos esposos depende, com efeito, grande parte do equilíbrio material
e moral do lar, a existência e o futuro dos filhos. Mas apenas pretendo focar
aqui este problema sob o ângulo psicológico e social. Entre os fatores que
contribuem para determinar a escolha nupcial, há alguns, na verdade, que são
exteriores ou sociais (consideram-se o meio, a classe social, a fortuna) e
outros interiores ou psicológicos (decide-se pelo amor ou pela razão).
Detenhamo-nos um momento sobre estes pontos.

 

CASAMENTO E MEIO SOCIAL

 

Dantes este problema
não se punha. Cada pessoa se casava dentro da sua casta e, muito
freqüentemente, no meio da sua paróquia ou da sua profissão. Os diversos
organismos sociais, firmemente diferenciados, não se invadiam uns aos outros;
ausência de invasão que não implicava, aliás, quero sublinhá-lo, ausência de
intercâmbios.

 

Hoje, mercê da
facilidade e da freqüência das comunicações e mercê sobretudo da confusão de
classes e de funções, este estado de coisas mudou inteiramente. As uniões
entre pessoas de meios geográficos, culturais ou profissionais muito
diferentes, multiplicam-se cada vez mais. Mesmo nos nossos campos, para
não citar mais do que um exemplo, os jovens aldeões que outrora só desposavam
moças, não só pertencentes à mesma casta, mas ainda, no meio desta casta, de
famílias impregnadas das mesmas tradições, e com opiniões políticas e
religiosas iguais às suas, casam-se agora muito freqüentemente com uma
datilógrafa parisiense ou com uma italiana recentemente imigrada. E casos
semelhantes se observam em todos os meios.

 

Di-lo-ei claramente:
esta confusão não significa um progresso. A identidade do meio social
parece-me uma das condições centrais da felicidade conjugal. Não quer isto
dizer que eu afaste de um modo absoluto as uniões entre pessoas de diferentes
meios. Penso unicamente que devem constituir uma exceção: exigem, de todos os
modos, qualidades individuais que não se podem pedir à generalidade dos
homens. Sempre que um homem e uma mulher entram, através do casamento, para um
meio superior ou simplesmente estranho ao seu, é preciso que entrem subindo
(hoje há uma tendência excessiva para entrar em toda parte no mesmo plano) e
que superem pelo poder do amor e da adaptação a comunhão espontânea que
resulta da identidade do meio. Um príncipe só poderá desposar com acerto uma
pastora se essa pastora tiver uma alma de princesa, o que, em boa verdade, não
é excessivamente freqüente. Uma das taras do mundo moderno é pretender fazer
um costume do que só pode constituir exceção, e cair abaixo da norma ao querer
generalizar o que está acima da norma.

 

Numa união entre
indivíduos do mesmo meio, os hábitos, os gostos, as necessidades comuns ― todo
esse complexo de elementos bio-psicológicos imponderáveis que constituem o que
vulgarmente se chama costume ― contribui para fortalecer a harmonia. No
caso contrário, todo o peso do passado dos dois esposos tende, de alguma
maneira, a desuni-los. É difícil prever até que ponto determinado
comportamento material ou moral, perfeitamente natural num dado meio social,
se poderá tornar um fator de perturbação e de escândalo noutro meio diferente.

  

Uma anedota vivida
poderá ilustrar esta afirmação. Assisti um dia a uma conversa de uma velha
caseira da minha terra com o filho que pretendia desposar a filha de um
comerciante da aldeia. A mãe recusava o seu consentimento e, como ultima
ratio
, lançou-lhe, em tom de quem faz uma acusação infamante, estas
palavras decisivas: «Não te cases com esta moça! Ela precisa de comer carne
todos os dias». Esta reprovação estava perfeitamente justificada. Nos nossos
campos, o consumo quotidiano de carne tornou-se, desde o fim da outra guerra,
incompatível com as possibilidades materiais dos trabalhadores. Por isso, era
espontâneamente considerado como um luxo condenável, uma espécie de vício.
Confesso que escolhi um exemplo basto, um exemplo limite, se se quiser. Não
deixa de ser certo, no entanto, que dois esposos, igualmente animados da
melhor boa vontade, se arriscam a desconhecer-se e a chocar dolorosamente pelo
simples fato de terem sido modelados por um clima social diferente. O peso dos
costumes, as fatalidades do meio, é melhor tê-los como ajuda que como
obstáculo à união. Bem sei que vencer tais dificuldades é próprio dos grandes
caracteres. Mas refiro-me ao termo médio dos homens…

 

Poder-me-ão dizer que
basta o afeto recíproco dos esposos para suprir todos os vínculos climatéricos,
se assim lhes podemos chamar, e que o amor, possuindo todos os poderes, tem
também todos os direitos. E eu peço então licença para refletir um pouco. Só
conheço um amor que seja todo poderoso: aquele de que fala São João na sua
definição de Deus: Deus est charitas. E, além disso, coisa curiosa,
sempre notei que, quanto mais um homem proclama os direitos absolutos do amor,
menos o amor opera nele milagres, e mais provável é que os seus amores acabem
mal. É precisamente quando o amor julga ter todos os direitos que ele tem
menos poder. E isto deve incitar-nos a procurar o que se esconde, na maioria
dos casos, sob o belo nome de amor. E isso nos levará a falar das
determinantes propriamente psicológicas da escolha nupcial.

  

CASAMENTO DE AMOR OU DE
CONVENIÊNCIA

 

Seja-me desculpado o
exumar esta velha síntese, já ultrapassada pelos costumes atuais; mas o
simples fato de ela ter existido põe já um problema bastante difícil.

 

As dicotomias neste
gênero são anti-naturais: nascem da decadência das almas e dos costumes.
Aliás, em presença de muitas fórmulas deste tipo, interessa antes do mais,
perguntar, a título de simples hipótese de trabalho, se as palavras não
servirão para encobrir uma realidade absolutamente contrária ao que elas
exprimem: fazem-se muitas descobertas com este método. Quando uma palavra está
na moda, é muito freqüente que aquilo que ela designa seja muito raro ou ande
muito adoentado no mundo; todos se precipitam então sobre a palavra como um
álibi. No presente caso, eu poderia afirmar, se tivesse o gosto dos paradoxos
verídicos como Chesterton, que não conheço nada menos conveniente que um
casamento chamado «de conveniência», e nada mais egoísta do que um casamento
chamado «de amor».

  

Os defensores dos
«direitos do amor» não deixaram de pôr em manifesto ― sobretudo durante o
século XIX ― as conseqüências lamentáveis dos casamentos impostos a dois seres
por móbeis perfeitamente extrínsecos à atração dos corações (consideração de
castas, de fortuna, de situação etc). Acusaram o «casamento de conveniência»
de ser a causa de todos os desastres sociais. longe de mim o pensamento de
tomar a sua defesa… Mas basta unicamente um olhar em volta de nós para nos
apercebermos de que o «casamento de amor» está muito longe, também, de ser uma
garantia segura de estabilidade e harmonia.

  

Dei-me ao trabalho de
acompanhar na minha região alguns casos típicos de casamento de
conveniência[2] e de casamento de amor. No primeiro caso, tratava-se de jovens
que se casavam quase sem se conhecerem, porque a situação moral e material das
suas famílias era sensivelmente idêntica e porque tinha passado por ali um
desses benévolos casamenteiros que abundam nos nossos campos. No segundo caso,
os jovens casavam-se por pura inclinação recíproca, sem intermediários
familiares, e muitas vezes mesmo contra a vontade das suas famílias. Pois bem.
Enquanto que a maior parte dos «casamento de conveniência» davam origem a
lares sãos e sólidos, era sobretudo entre os casamentos chamados «de amor» que
se observavam os resultados pessoais e familiares mais negativos:
esterilidades voluntária, desentendimento ou separação dos esposos, etc.

 

Na realidade, a
conveniência e o amor representam aqui dois atentados contra a unidade da
vida, duas idolatrias que se atraem.

  

Seja-me permitida, a
este respeito, uma pequena digressão histórica. Nas épocas clássicas, as
instituições morais, políticas ou religiosas, estavam acima dos indivíduos que
as representavam e levavam atrás de si. A monarquia era mais do que o rei, o
sacerdócio mais do que o padre. Isso explica que fosse então possível darem-se
ao luxo de desprezar determinado rei ou determinado Papa, sem que o próprio
princípio da monarquia fosse de modo algum posto em causa. Recordemo-nos, por
exemplo, das invectivas duma santa, como Catarina de Sena, contra o clero do
seu tempo, ou de um grande católico como Dante, que punha o Papa então
reinante no inferno. Agora, como em todas as épocas de decadência, assistimos
ao fenômeno inverso: as instituições só são toleradas e amadas através das
pessoas: eis porque, seja dito de passagem, temos necessidade, mais do que
nunca, de chefes políticos e religiosos íntegros e enérgicos. Agora mais do
que nunca, o chefe que falta á sua missão, compromete a par da sua efêmera
pessoa, o princípio eterno que representa. É um tanto ou quanto angustioso ver
indivíduos fracos carregar sobre os seus ombros todo o peso das
responsabilidades sociais. Julgais que os italianos e os alemães estavam tão
vinculados ao princípio da ditadura como à primeira vista parecia?
Absolutamente; era a pessoa de Mussolini e de Hitler que eles adoravam. E
julgais também que é possível atualmente um anti-clericalismo que não seja ao
mesmo tempo anti-religioso? Ah! Cada dia se torna mais difícil separar a causa
das instituições da causa das pessoas…

  

A instituição
matrimonial sofreu, como é natural, as mesmas vicissitudes. Outrora, as
pessoas encontravam-se não somente subordinadas, mas ainda muitas vezes
sacrificadas às instituições. No antigo regime (o mesmo estado de coisas se
verifica, aliás, em todos os meios sociais, com exceção da classe estritamente
proletária) uma moça estava votada ao matrimônio mais do que a um determinado
esposo. As pessoas pouco importavam; o que importava eram as tradições e os
quadros sociais. Isto não deixava de ter o seu lado bom. Primeiramente, nada
impedia que um amor sólido e até apaixonado se enxertasse numa união contraída
por razões de puro conformismo social. Depois, mesmo que a união lhes não
desse nenhuma plenitude pessoal, os esposos tiravam dessas imensas reservas de
força e de continuidade que são as instituições, o gosto e a coragem para
permanecerem fiéis aos seus deveres (aliás, é próprio dos climas clássicos
tornar espontâneo e como que natural o cumprimento dos deveres e de
sacrifícios que num meio decadente exigem sobressaltos heróicos da
personalidade). Quando a hora da tentação chegava, uma esposa do grande século
lutava, não somente para permanecer fiel ao seu marido, mas ainda ― para além
da personalidade deste ― para permanecer fiel ao matrimônio…

 

Enquanto estas
tradições se mantiveram vivas, isto é, alimentadas de seiva cristã e apoiadas
na pessoa de Deus, elas foram, a despeito dos excessos sempre inerentes a tudo
o que é humano, sólidos tutores, apoios orgânicos para os indivíduos. Mas,
desde que foram separadas do concreto divino, desde que degeneraram em
formalismo exangue, converteram-se em cargas intoleráveis para os homens.

  

O casamento, tal como
se efetuava em certos meios burgueses do século XIX recusava à pessoa original
e livre, ao homem da carne e de alma, o seu lugar no mundo. A «lei» exigia do
homem todos os sacrifícios, e isso sem lhe oferecer as profundas compensações
concretas que acompanham toda a imolação de natureza religiosa. Então, como
era natural, a reação produziu-se: a personalidade retomou o seu lugar. Que
direi eu? Fez o que fazem todas as coisas que estão comprimidas e se revoltam:
para retomar o seu lugar, ocupou todo o lugar! Subversão total de valores:
imolavam-se os indivíduos às instituições; agora, imolam-se as instituições
aos indivíduos. Proclamaram-se os direitos absolutos da escolha individual,
pretendeu-se tudo submeter ao arbítrio do amor. O século XIX oferece o curioso
espetáculo do conservantismo mais chão e mais esclerosado coexistindo com a
febre individualista mais ardente.

 

Se aquilo a que os
clássicos degenerados chamam ordem e lei não é mais do que a marca da
impotência e da opressão, aquilo a que os românticos de todos os gêneros
chamam amor, parece-se bastante a uma espécie de véu adulador lançado sobre a
divinização da sensualidade e do eu. Muitos homens tomam por uma verdadeira
paixão espiritual, por uma escolha profunda, o que na realidade não passa de
uma paupérrima mistura de atração instintiva e de orgulho: nada de mais
perfeitamente egoísta que certos casamentos de amor que nascem, não da união
íntima de duas almas, mas da vulgar sede de uma felicidade superficial e
imediata, de uma felicidade impermeável ao dever… E é essa a razão de que
tantos descontentamentos se sigam a essas uniões: aquele que se casa sem
consultar outra coisa em si que não seja a concupiscência dos olhos e o
orgulho da vida, como diz São Paulo, no dia em que a lassidão ou uma nova
paixão o invadirem, estará fortemente ameaçado, uma vez mais, de escutar «a
voz do coração» e de exercer de novo «o seu direito ao amor». É difícil
permanecer fiel a uma escolha operada pela arbitrariedade individual fora de
influências supra-pessoais que emanem do meio moral e social.

  

A lei, separada de Deus
e divinizada, não é mais do que uma abstração esgotadora. Mas o indivíduo
concreto, igualmente separado de Deus e divinizado, converte-se também numa
abstração sem força e sem vida. É preciso superar esta antítese. O divórcio
moderno entre as instituições e os indivíduos acabará, ou nas piores
catástrofes, ou numa síntese mais elevada e mais bela do que tudo o que até
agora se viu. É possível conceber instituições mais adaptadas que as de
outrora às necessidades e à dignidade das pessoas, e, por outro lado, pessoas
mais respeitadoras que as de hoje, das instituições sociais e morais.

  

Já, em muitos casos, a
escolha nupcial deixa hoje de ser uma escolha simplesmente «de conveniência»
ou simplesmente «de amor», para se tornar uma escolha total, quer dizer, uma
escolha de amor, mas de um amor bastante esclarecido para poder respeitar e
para poder assumir, ao lado da atração individual dos corpos e das almas, não
direi os preconceitos, mas as necessidades centrais da vida social. Uma
escolha desse gênero ― é preciso dizê-lo ― só pode ser uma escolha impregnada
de espírito religioso, uma escolha apoiada em Deus, Criador comum do indivíduo
e da cidade; e no seio da qual se unem todas as coisas que, sob o clima
essencialmente dissociador da idolatria, pareciam votadas a uma guerra eterna.

 

A VIDA COMUM

 

Depois destas
declarações um pouco extrínsecas, voltemos à vida comum propriamente dita. A
união dos esposos, para ser completa e fecunda deve repousar sobre quatro
condições que separo por necessidade de exposição, mas que na vida se
confundem até à identidade: a paixão, a amizade, o sacrifício e a oração.

  

CASAMENTO E VIDA SEXUAL

 

«Serão uma só carne»,
diz o Evangelho. Eu não concebo o casamento sem uma atração sexual recíproca.

 

Aqui há dois escolhos a
evitar: a falta de atração sexual e o primado da atração sexual. O casamento
deve encaminhar-se para a plenitude sexual que seja, ao mesmo tempo, uma
plenitude humana; quer isto dizer que ele deve repousar sobre a atração dos
sexos, mas sobre esta atração assumida, coroada e ultrapassada pelo espírito.

  

O homem tem sempre
tendência para menosprezar aquilo a que os filósofos chamam causalidade
material. Julgou-se durante muito tempo que se poderia estabelecer a união
conjugal independentemente das regras da sexualidade. Nem a comunidade de meio
ou de casta, nem a estima recíproca, nem o sentido do dever social ou
religioso, podem suprir a paixão carnal quando esta falta. Quantas uniões
soçobram por completo ou não conservaram mais do que a fachada legal por causa
do desentendimento sexual! Há que confessar que a educação das moças, tal como
se vinha fazendo durante séculos, constituía, sob este aspecto, um paradoxo de
que não nos assombramos ainda bastante. Educavam-se as meninas num misto de
ignorância e de horror às coisas da carne, e depois lançavam-se de um dia para
o outro, sem outra precaução, numa situação em que as coisas, ainda ontem
revestidas de uma espécie de mysterium tremendum, se deviam tornar, sem
transição, num hábito e num dever! Como admirar-se, depois disto, do fracasso
total ou parcial de tantas uniões preparadas com semelhante desprezo das
exigências elementares da vida?

  

Porém, uma união
fundada sobre a atração exclusiva dos sexos não é também uma união
verdadeiramente humana. Separados das raízes, o caule e as flores murcham, mas
a raiz por sua vez apodrece sempre que a não prolongam e dominam, o caule e as
flores. Não há nada tão vulgar, tão vazio sob o brilho das aparências, nem tão
frágil e vulnerável ao tempo como um amor dominado pelo impulso dos sentidos.

  

Disse-se que o
matrimônio não resolve o problema sexual. Isto é verdade se se faz do problema
sexual um absoluto, se se diviniza a carne separada da alma (o culto da carne,
a sexolatria, é uma das pragas do nosso tempo); mas é falso se se põe a
sexualidade no seu devido lugar, se a considerarmos já não como um todo
autônomo, mas como uma parte ligada organicamente a um conjunto e impregnada
por este conjunto. As reivindicações de certos apóstolos da sexualidade
baseiam-se na confusão do sexo e da alma, do sexo e de Deus. Nós, pelo
contrário, não queremos uma plenitude sexual comprada em troca da plenitude
humana; não temos nenhum gosto pelos costumes que, sob pretexto de
satisfazerem plenamente o sexo, tornam o homem vazio de tudo o mais. Só o
casamento pode satisfazer o instinto sem degradar a pessoa.

  

A este respeito seja-me
permitido esvaziar um dos balões da psicologia contemporânea em que mais se
soprou. Pretendo referir-me ao suposto «instinto poligâmico do sexo masculino»
― esse pobre instinto que a instituição de casamento condena a tão tristes
renúncias! Pois bem. Na verdade, não há instinto poligâmico. O instinto
enquanto tal, isto é, o instinto considerado na sua pureza biológica e virgem
de qualquer infiltração espiritual, não é nem poligâmico nem monogâmico.
É realmente neutro em relação à fidelidade e à mudança; está mais aquém dessas
categorias… O instinto sexual de um animal tende para a fêmea; é-lhe
absolutamente indiferente que esta seja a mesma ou outra. Sem dúvida, se uma
nova fêmea se apresentar, ele deseja-la-á, mas este desejo irá dirigido
à fêmea e não à outra: acomodar-se-á tão bem a esta como à que possuía
ontem ou no ano passado, sempre e quando ela preencha as condições
fisiológicas desejadas… O que impele o homem para a poligamia é a
curiosidade
, é o pecado do espírito infiltrado no instinto. O instinto
puro deseja a outra enquanto mulher; a curiosidade sexual deseja a mulher
enquanto outra. É uma grande ilusão pensar que os impulsos sexuais de um homem
civilizado são exclusivamente feitos de instinto sexual; não se sabe até que
ponto poderá o instinto estar aqui ao serviço da vontade de poder, da sede de
conhecer e de dominar. Se fosse doutra maneira ver-se-iam acaso tantos homens
pôr tanto empenho em seduzir mulheres que são muitas vezes inferiores, sob o
ponto de vista fisiológico, à sua própria esposa? Quando um homem luta por
permanecer fiel a uma mulher amada, não é o ideal que luta nele contra o
instinto ― são antes dois «ideais» que se enfrentam, e o combate é sobretudo
espiritual. O ideal monogâmico luta, então, contra essa espécie de ideal
negativo que é o instinto sexual impregnado e depravado pelo apetite de
mudança, de conquista e de conhecimento; luta contra uma das múltiplas facetas
dessa mentirosa, dessa infernal sede de infinito que, a partir do pecado
original, consome o homem. A fidelidade conjugal não é um problema
fisiológico, é um problema moral. Se a alma é profundamente, simplesmente
monogâmica, o instinto segui-la-á sempre. Pode-se repetir com Cristo: se o teu
olho é simples, todo o teu corpo será luminoso.

 

A castidade conjugal
reside, como antes dissemos, não na negação da carne em proveito da alma, mas
na adoção, no «envolvimento» da carne pela alma. Nietzsche disse sobre isso
palavras definitivas: «No verdadeiro amor, é a alma que ‘envolve’ o corpo».

  

Existe um materialismo
da vida em comum. É o casamento baseado unicamente nas alegrias carnais. Mas
existe também um pseudo-idealismo amoroso que julga desprezar a carne, mas que
na realidade está feito não de espírito, mas de uma sensualidade impotente e
turva. Estas
duas aberrações «mutiladoras» são igualmente de evitar. A vida em comum deve
ser de um realismo total, de um realismo centrado no alto, mas estendido a
todo o homem. Os esposos devem educar-se, não renunciando à carne como os
ascetas, mas, o que é talvez mais difícil, arrastando a carne na ascensão da
sua alma.

 

Sem dúvida, este ideal
plenamente humano implica fatalmente sacrifícios de ordem sexual. O primeiro
destes sacrifícios é a adaptação à estrutura sexual do cônjuge. Convém não
esquecer, como parecem fazê-lo alguns apóstolos dos direitos imprescritíveis
do sexo, que o exercício da função sexual, diferentemente de outros instintos,
como a nutrição por exemplo, exige companheiro. Ora, a constituição sexual da
mulher e, por conseguinte, os seus gostos e as suas necessidades sob este
aspecto, são muito diferentes das do homem. Além disso, é preciso ter em conta
as divergências individuais resultantes do temperamento, da educação etc. Se
cada um dos cônjuges não procurasse senão a sua própria satisfação que
sucederia? O mais elementar sentimento do dever conjugal ensina aos esposos a
subordinar sempre a alegria que recebem à alegria que dão. No casamento, o
máximo da plenitude sexual recíproca só poderá ser atingido se cada um dos
esposos consentir em sacrificar, em certa medida, a sua plenitude sexual
individual.

   

Pode acontecer também
que em virtude de necessidades biológicas, sociais ou morais, o sacrifício
total dos prazeres da carne seja imposto aos esposos. É preciso então que este
sacrifício seja um autêntico sacrifício, isto é, uma imolação reta e franca, a
plena luz, sem subterfúgios, sem segundas intenções, sem compensações
equívocas. Precisemos: este sacrifício não deve ser um recalcamento. O
verdadeiro sacrifício, imolando o instinto, sublima-o e transfigura-o; o
recalcamento limita-se a transpô-lo, a disfarçá-lo, a fazer dele uma força
vergonhosa e assolapada que recai sobre o espírito e o contamina, uma fonte de
ressentimentos, de falsos ideais, de virtudes farisaicas. Depois de Nietzsche
e de Freud é inútil insistir na descrição deste quadro… o verdadeiro
sacrifício alimenta a alma, o recalcamento envenena-a.

  

Haveria muito que dizer
sobre esta sublimação dos instintos nos esposos votados a uma continência
permanente ou transitória. Uma análise diferencial da sexualidade superior no
homem e na mulher seria muito elucidativa a esse respeito. Mas o problema é
demasiado vasto e demasiado delicado para poder ser abordado aqui.
Contentemo-nos com fazer notar que, quando os dois esposos sacrificam as suas
relações de ordem puramente genésica, o homem sublima normalmente o seu
instinto sexual em pensamento, em ideal extra-pessoal e a mulher em ternura.
Se a mulher é muito menos carnal que o homem no exercício material da
sexualidade, é-o muito mais nas suas sublimações mais sãs. A compenetração da
carne e da alma existe nela num grau desconhecido para o sexo oposto; nas
emoções mais carnais ela põe mais alma que o homem; pelo contrário, mistura
muito mais do que ele a carne nas paixões do espírito. Freqüentemente sucede
que, quanto mais uma mulher se encontra privada de satisfação sexual completa,
mais carinhosa ela se torna: a sua sexualidade, muito menos localizada e
brutal, muito menos animal, por assim dizer, que a do homem, encontra muitas
vezes nas mais inocentes satisfações de ternura uma satisfação suficiente.
Porém as próprias carícias que para a mulher substituem a plena posse
carnal, apenas conseguem, no homem, preparar esta posse e, em vez de acalmar o
instinto, exacerbá-lo mais. Se as mulheres soubessem isto, creio que a
continência conjugal se tornaria em muitos casos mais fácil.

  

Subordinado deste modo
o amor ao dever e como que embebido no espírito, a união dos corpos fica
revestida do seu mais profundo significado e realiza a sua finalidade
verdadeiramente humana. Não é já unicamente a sociedade de dois desejos
soldados um ao outro, a conjunção de dois egoísmos; é a expressão mais forte
que pode existir da doação mútua e como que o selo material, o símbolo
sensível da união das almas. Sob este aspecto, a posse corporal confere ao
amor um não se quê de acabado e de irrevogável que só os verdadeiros esposos
conhecem. E é uma grande tristeza ver tantos seres humanos ― e entre estes
tantos esposos ― profanar este sinal sagrado do amor e abandonar a sua carne
enquanto reservam a sua alma. Em vez de ser posta em primeiro lugar e, muitas
vezes, de andar sozinha, a união dos corpos deveria seguir e prolongar um dom
superior, descer da plenitude do amor. Assim abandona o ramo à terra o
seu fruto e o céu o seu orvalho.

  

O significado profundo
da sexualidade reside no uso que o homem dela faz. Segundo o modo como ela é
vivida, usada pela personalidade, poderá tornar-se na mais forte manifestação
do amor espiritual ou no pior obstáculo a este amor. De resto, o instinto
sexual não pode nunca exercer-se na sua pureza e simplicidade animais. É
preciso que se remonte mais acima ou caia mais abaixo de si mesmo. Se se não
elevar para Deus descerá para o diabo. Se não é amor, tornar-se-á
luxúria
. Muitas vezes se tem pretendido que os dois esposos (e o marido em
particular) se podem entregar a todos os seus impulsos inferiores e cometer
carnalmente o adultério enquanto se mantém fiéis na alma. Hipócrita
justificação da pior das desordens! Como se a carne não estivesse, ainda no
seu fundo, impregnada pela alma! Como se a alma estivesse cativa e não
fosse a forma do corpo!

 

Bem sei que um tal grau
de integração espiritual do instinto não é coisa vulgar nem fácil. Falo dele
como de um ideal que os esposos não deveriam nunca perder de vista, por
maiores que sejam as suas fraquezas e os seus desfalecimentos concretos.
Porque, se viver na mediocridade é de si um mal, consentir na mediocridade é
uma espécie de mal supremo, de pecado contra o espírito.

  

CASAMENTO E AMIZADE

  

Não é sob a paixão
carnal, e não é também ― porque não existem no homem paixões puramente animais
― sobre essa espécie de ternura superficial que nasce da emoção sexual, sobre
esse sentimentalismo de romance e de café-concerto que se pode fundar uma
união sólida e pura. A vida em comum exige uma comunhão muito mais profunda,
muito mais universal. O amor dos esposos, para ser verdadeiramente amor e não
um capricho do instinto, deve ser também uma amizade.  

  

Nietzsche diz algures
que todo o homem, antes de se casar, deveria fazer a si próprio uma pergunta:
Serás capaz de conversar com esta mulher em todos os dias da tua vida? E,
realmente, não há pior solidão que viver junto a um ser ao qual nos une
unicamente uma atração subordinada ao instinto. A carne, como tal, não é a
porta da alma. Com razão escreveu o poeta:

 


«A
tua carne, impenetrável à força da proximidade, pedra tão suave e tão dura,
onde se afia a minha solidão.


«A
tua carne que eu toco e que não sabe o caminho da minha essência e do meu
centro


«Enquanto que a mais
longínqua estrela corre dos meus olhos até ao meu coração».

 

E Paul Géraldy, que tão
bem expressou, no seu pequeno livro Toi et Moi a miséria desta ternura
epidérmica de colorido puramente sexual que tantos modernos tomam por amor,
faz dizer o amante à amante: «Se fosses um homem, seríamos amigos?»

  

O instinto sexual, com
efeito, é o isolamento. Os animais procuram-se e acasalam-se, mas,
psiquicamente, continuam totalmente impermeáveis um ao outro. Acontece-me
muitas vezes contemplar o soberbo pavão que ornamenta a minha capoeira: ele
empertiga-se, espilra, arma a cauda, reveste-se de todo o seu atrativo sexual
sem que a fêmea se digne premiá-lo com a menor atenção; cada um evolui na sua
esfera impenetrável como as mónadas sem janela de Leibnitz, e quando se
juntam, pensa-se, na realidade, nalguma harmonia pré-estabelecida, mais do que
numa simpatia, no sentido psicológico da palavra. Se uma tal solidão pudesse
ser consciente, seria a coisa mais trágica e mais insuportável do mundo.

   

O instinto sexual é
também guerra. Nenhum amor está tão próximo do ódio como este. A brutalidade
do macho e a astúcia e a coqueteria da fêmea demonstram suficientemente a
tensão entre os dois sexos. Naturalmente este dualismo biológico foi
consideravelmente agravado e infectado pela malícia do homem pecador. Quando o
eu (no sentido «pascaliano» e pejorativo do termo) se sobrepõe, com o seu
orgulho e a sua vontade de poder, ao instinto sexual, o amor converte-se na
guerra mais surda que se pode imaginar. Então, a própria atração exercida pelo
ser «amado» se transforma em tortura e veneno. Aos psicólogos que pretendem
que o amor do homem e da mulher está baseado no ódio mortal dos sexos, não
lhes faltariam argumentos concretos. Que outra coisa é a mulher fatal e
pérfida (Dalila, Cleópatra, etc.), tal como a história no-la revela, senão uma
mistura de instinto sexual e de pecado ― uma fêmea em cuja carne se enxerta
não uma alma, mas um eu que a corrompe? Ora, a verdadeira mulher é, antes
de mais, uma alma.

  

O instinto sexual é
também a indiferença em relação à personalidade. O instinto procura no outro a
sua própria satisfação e não o ser singular que o satisfaz. «Gostarias menos
de mim se eu fosse um outro?», pergunta ainda Géraldy. Nem mais, nem menos, se
é apenas o instinto que está em jogo. Vimos já que os problemas de fidelidade
e de mudança não tinham qualquer entrada neste domínio.

  

A amizade, essa,
penetra o objeto amado, vive da sua vida, desposa a sua alma. E, deste modo,
destrói a solidão interior que afeta os seres a quem um mero instinto sexual
aproxima.

  

A amizade é também
portadora de paz. Corrige e domina a tensão inerente ao dualismo sexual. No
amor dos sexos, conserva o ardor e acalma o conflito. Ensina o homem a dominar
sem brutalidade e sem jactância e a mulher a dar-se sem baixeza e sem
artifício. Aqui devemos destacar um ponto em particular. O homem só conta com
o amor espiritual para vencer em si a inconstância e a guerra sexual, enquanto
que a mulher, além deste amor, possui ainda um outro instinto que, misturado à
sexualidade, assegura a esta uma estabilidade e uma profundidade que não estão
na sua natureza. Refiro-me ao instinto mais elevado e mais puro que existe, à
maravilha biológica por excelência: o instinto maternal. A mulher, com efeito,
pode realizar o prodígio (inteiramente desconhecido no mundo animal) de fazer
convergir para o mesmo ser, o seu instinto sexual e o seu instinto maternal.
Julgo que não exagero se disser que o primeiro filho de qualquer mulher, que
nasceu realmente para ser mãe, é o seu esposo. E penso que é essa uma das mais
profundas raízes da perenidade do amor feminino.

   

Enfim, a amizade, que
está feita de atração e de escolha pessoais, dá à personalidade o seu
lugar no amor e substitui a ligação necessariamente efêmera de dois
egoísmos pela união estável de dois seres eleitos um para o outro e
insubstituíveis um para o outro.

   

Só a amizade permite
aos esposos compreenderem-se. Mas como esta mesma amizade, por mais espiritual
que seja, fica enraizada na sua constituição (e por conseguinte na sua
diferença) sexual, reveste-se, de um lado e de outro, de formas muito
diferentes. Para melhor se compreenderem ― e, portanto, para melhor se amarem
― os esposos devem compreender antes de mais com que espécie de amor são
amados um pelo outro. Um amor mal compreendido pelo ser amado está mais
exposto a ferir ou a cansar este do que talvez a própria indiferença.

  

O Larousse do século XX
diz-nos no artigo Mulher que o traço dominante do caráter feminino é o
egoísmo
. Todos sabemos, por outro lado, quanto as mulheres têm o costume
de se queixarem do egoísmo masculino. Na realidade, o homem e a mulher têm
cada qual o seu modo específico de egoísmo e de amor.

   

É sabido ― e não
insistirei mais sobre este ponto já tantas vezes tratado ― que o amor da
mulher se dirige em geral para objetos, não direi mais concretos, mas mais
imediatos, mais materiais, se se quiser, do que o amor masculino. O ideal da
mulher está muito mais «encarnado» que o do homem. A mulher foi criada para se
sacrificar pelos seres que a rodeiam e que conhece, e assegurar o futuro
imediato da humanidade. O homem, pelo contrário, está votado a um dom mais
universal; a sua missão é entregar-se ― desgastar-se muitas vezes ― por fins
sem dúvida igualmente reais, mas muito menos próximos no tempo e no espaço. A
mulher vela pelas subestruturas, o homem pelas superestruturas. E não creio
que estas duas funções ganhem nada por estarem invertidas como o estão
freqüentemente nos nossos dias (há que confessar, no entanto, que com algumas
exceções). A consciência pública considera espontaneamente um fraco, e até
como um covarde, um homem que, ao ter de optar por uma coisa ou por outra,
sacrifica a sua missão na sociedade ao amor de uma mulher (será preciso
recordar o recente exemplo do rei de Inglaterra?), ao passo que uma mulher
que, em face de idêntico dilema, renunciasse a um ser amado para fazer
política ou filosofia, seria, com razão, tida por ridícula.
O heroísmo está polarizado de uma maneira muito diferente segundo os sexos…
E o egoísmo também (refiro-me ao egoísmo normal, ao egoísmo bom): o da mulher
consiste em abstrair das coisas longínquas e universais para melhor se dedicar
às coisas próximas; o do homem em desprezar, em certa medida, as coisas
imediatas com vistas a um dom mais elevado e mais longínquo. Esta divergência
não se pode dar sem certos choques.

  

Um homem, por exemplo,
fica um pouco desiludido quando, no meio de uma conversa em que ele expõe com
entusiasmo à sua mulher as suas mais caras convicções, esta o interrompe para
lhe dizer: «A propósito: E se eu fizesse um soufflé com queijo para o
jantar?». Inversamente, as mulheres espantam-se muitas vezes da falta de
delicadeza e de atenção dos homens em mil pequenas circunstâncias da vida
quotidiana. Para não sofrer com estas coisas é preciso compreender o cônjuge e
saber que se pode ser amado por ele tanto ou mais do que o amamos, mas não com
o mesmo amor. Além disso, entre os esposos, a reciprocidade do amor dá sempre
origem a uma certa identidade de amor. O afeto da mulher universaliza-se em
contato com o ideal do seu marido; do mesmo modo, o amor do homem ganha em
delicadeza concreta em contato com a ternura feminina. A vida em comum preta a
cada um dos cônjuges o maior serviço que pode receber um ser limitado e
unilateral; ser salvo de si mesmo…

  

Uma outra diferença
essencial na estrutura do amor dos esposos. O afeto feminino é infinitamente
menos dependente do intelecto que o do homem. Existe, na mulher, uma espécie
de autonomia do coração. Um homem ama uma mulher pelas suas qualidades: (tem
ou julga ter razões para amar) justifica o seu amor em face da sua
consciência. Uma mulher, pelo contrário, amará um homem por si mesmo. Um homem
dirá: Amo-te porque tu és bela, ou meiga, ou boa, etc. A mulher dirá
simplesmente: Amo-te porque te amo! Para o homem, amar é preferir. Para a
mulher, amar é não comparar. Percebe-se o matiz…

   

É um lugar comum dizer
que o amor da mulher é mais «cego» que o do homem. O que menos se tem feito
notar é o seguinte: o amor feminino, precisamente porque é cego, como o amor,
porque se apóia pouco nas razões de amar, permite uma maior clarividência em
relação ao ser amado e nutre-se menos de ilusões. Na medida em que o amor é
independente do intelecto, o intelecto pode, por sua vez, funcionar
independentemente do amor. E é isto precisamente o que acontece na mulher. Ao
contrário do homem, em quem o amor, ligado a juízos, a comparações, se sente
ameaçado pela revelação das falhas do ser amado e reage através de ilusões, a
mulher pode dar-se ao luxo de julgar lucidamente aquele que ama, sem que o seu
amor diminua por isso. Para além das qualidades banais e como que provisórias
que motivam a maior parte das vezes o afeto masculino, o seu amor, atinge, por
assim dizer, a substância única e eterna do ser; situa-se espontaneamente para
além da decepção, não necessita do apoio das ilusões. É por isso que se
encontram tantas mulheres inflamadas de amor e de admiração por um homem e, ao
mesmo tempo, conscientes de todos os pequenos defeitos desse homem. É por isso
também que nos podemos mostrar tal qual somos diante de uma mulher, descer ao
limite inferior de nós próprios sem pôr em perigo o seu amor (é típico, a este
respeito, o exemplo das esposas dos criminosos). E creio, além disso, que há
um grande número de homens que, julgando as mulheres pelas suas medidas, se
crêem obrigados, para conquistar ou para as reter, a dissimular as suas
fraquezas, a tomar atitudes falsas ou lançar-lhes poeira para os olhos. Não
conseguem com isto, acrescentar o amor das mulheres, porque isso não é
necessário, mas fazer com que se riam deles. Era o que fazia dizer a Toulet:
as mulheres sabem muito bem que os homens não são tão bestas como se julga ―
são bem mais…

 

Se a carne pode
aproximar um do outro o homem e a mulher, só a amizade os pode abrir um ao
outro. Não obstante, e a precedente análise o revela suficientemente, esta
amizade só muito raramente poderá atingir essa perfeita transparência
intelectual que constitui o único encanto das amizades entre os homens. Os
dois sexos, porque são complementares e portanto diferentes, permanecem sempre
um pouco opacos um ao outro; mais ainda, o amor que os une alimenta-se deste
mistério recíproco, repousa em parte na impossibilidade de «se compreenderem»
inteiramente: o que nos atrai num amigo é aquilo que sabemos dele; na mulher,
aquilo que ignoramos (a isso nos conduz a consideração de que enquanto a
amizade cresce na medida em que penetramos na alma do amigo, o amor muitas
vezes decresce na medida em que despimos a mulher do seu mistério, como diz
Proust). É preciso aceitar este estado de coisas. Creio que muitos esposos se
encontram desiludidos porque o seu amor estava excessivamente carregado de
exigências intelectuais. Quereriam possuir a esposa tanto pelo pensamento como
pelo coração. Mas, se compreendessemos uma mulher a esse ponto, já a não
poderíamos amar, porque deixaria de ser uma mulher, isto é, o ser estranho que
nos completa. Poderíamos pôr ao invés o verso de Géraldy e dizer ao amigo mais
querido: se fosses mulher, seríamos amantes? No casamento ― não pretendo levar
demasiado longe a analogia, mas ela existe ― é preciso, como na vida mística,
aprender a respeitar e a amar o que não se compreende totalmente. O amor da
criatura, também ele, exige atos de fé.

 

VIDA CONJUGAL E
SACRIFÍCIO

 

Se há tarefa
tragicamente urgente para o moralista moderno é a de lembrar aos homens a
noção do sacrifício. Todos os desastres, todas as misérias do casamento,
procedem do esquecimento desta necessidade. Não concebo um casamento feliz sem
sacrifício mútuo. Não há nisto nenhum paradoxo. A primeira condição da
felicidade é não a procurar. Nesta ordem de idéias é lícito dizer, pondo ao
contrário as palavras evangélicas: Não procurei e encontrareis.

  

Um homem nobre
esforçar-se-á por viver como um homem; um homem vil procurará viver feliz. O
último procurará na terra as coisas e os seres que o poderão satisfazer; o
primeiro procurará os seres e as coisas a quem se possa imolar. Não
«arranjamos» uma esposa, damo-nos a ela. Casar é talvez o modo mais direto e
mais exclusivo de deixar de pertencer-se. Chesterton, lendo um jornal
americano onde dizia: «Todo o homem que se casa se deve convencer de que
renuncia a cinqüenta por cento da sua independência», fazia notar: «Só no Novo
Mundo é possível um otimismo deste gênero!».

 

O segredo da felicidade
conjugal está em amar esta dependência. O ser que vive ao nosso lado, devemos
amá-lo menos na medida do que nos que na medida do que nos custa.

   

A vocação do casamento
consagra-nos ao nosso cônjuge. Estas palavras têm um grande alcance. Dão
sentido a todos os nossos deveres e a todas as dores da vida comum. Fazem
sobretudo da felicidade conjugal, não há uma espécie de sacrifício estéril,
mas um ato religioso do mais alto valor humano.

  

Já não sabemos ser
fiéis porque não sabemos sacrificar-nos. Tantos homens há que só amam pelo
prazer imediato… Condenam-se, deste modo, a conhecer apenas a superfície do
objeto amado, e, quando esta superfície os desilude, a trocá-lo por uma outra
superfície, e assim por diante.

   

Andar à volta de tudo e
não chegar ao centro de nada, não será o que alguns denominam plenitude e
liberdade? É de tal maneira mais fácil correr do que aprofundar! Mas aquele
que quer saborear a profundidade de uma criatura deve saber sacrificar-se por
essa criatura; o seu amor deve superar as decepções, superar o hábito; mais
ainda, deve alimentar-se dessas decepções e desse hábito. O amor humano tem a
sua aridez e as suas noites; também ele não encontra o seu centro definitivo
senão para além da prova sofrida e vencida. Mas, uma vez chegado a esse ponto,
ele saboreará a riqueza, a pureza eterna da criatura pela qual se imolou.
Porque, se a criatura é tremendamente limitada em superfície, é infinita em
profundidade. É profunda até Deus. Sempre cantaram os poetas esta captação
amorosa do eterno através do ser efêmero:

 


Tu
que passas, tu que desvaneces,



busquei-te para além dos dias e das sombras,



sobre as praias invariáveis da vontade eterna…



Desci às tuas entranhas,



mais além dos latidos do teu coração,



mais adentro que a fonte das tuas promessas


até
ao centro solene onde a tua vida se une à Vida,


até
ao fremir irrevogável,


até
à palpitação criadora de Deus!



Eu amo a tua alma!

 

Chegou a falar-se do
que a vida conjugal tem de banal, de monótono, de terra à terra. Bem sabemos
quanto o homem é capaz de banalizar e de prostituir as coisas mais profundas.
Mas, se a vida conjugal é muitas vezes vulgar, que se poderia dizer da vida
sexual extra-conjugal? Creio que uma das mais sutis malícias do demônio é
tentar persuadir os homens de que a ordem é a morte e a desordem a vida. Na
realidade, nada mais vulgar do que o vício. O demônio não é profundo





não é mais do que um revoltado. É um
desertor que tenta fazer-se passar por evadido… 

  

As humildes realidades
da vida quotidiana, o cortejo de pequenos deveres e de pequenos sofrimentos,
em nada deverão alterar a pureza do amor nupcial. O verdadeiro ideal tira nova
seiva destas pequenas coisas. O realismo da vida conjugal não tem por função
profanar ou estiolar o ideal primitivo dos esposos, mas purgar este ideal das
ilusões que com ele se misturam, e não reter dele mais do que a sua suprema
essência. Na alma dos esposos que são dignos desse nome, a união do mais
elevado amor e das necessidades mais terrenas, mais materiais, cria uma
espécie de síntese do ideal e do real, uma espécie de realismo do ideal, se
assim me posso exprimir, que em parte alguma poderá existir em tal grau.

   

Josefina Soulary disse
que Deus «se só estivesse lá em cima,
não estaria em parte alguma».


  

O casamento é, por
excelência, a vocação que permite pôr Deus no que a vida tem aparentemente de
mais comum e de mais banal.

  

Ia-me esquecer de uma
observação importante. O casamento deve ser um sacrifício, é certo. Mas um
sacrifício recíproco. Haverá algo de mais vão, de mais prejudicial mesmo, do
que uma imolação em sentido único? Dois egoísmos juntos travam-se mutuamente
e, de certo modo, neutralizam-se. Que caldo de cultura não seria para as
tendências egoístas de uma criatura o sentir em torno de se uma atmosfera de
dedicação infatigável! Todos conhecemos lares em que o espírito de sacrifício
de um dos esposos faz do outro um monstro de exigência e de egoísmo. Cada
esposo deve tirar do espetáculo de generosidade do seu cônjuge, não um
pretexto
para fazer as suas vontades, mas um motivo para se imolar mais a
si mesmo.

  

AMOR E ORAÇÃO

  

Sacrificar-se a uma
criatura, amá-la apesar do seu nada, por causa do seu nada, amá-la com um amor
mais forte e mais puro que o desejo de felicidade, tudo isto só é possível se
o amor humano se conjuga e se amalgama com o amor eterno.

  

Não convém divinizar o
ser amado. Esta idolatria conduz, a breve prazo, à indiferença ou à repulsa. O
autêntico amor nupcial acolhe o ser amado não como um Deus, mas como um dom de
Deus em que todo o divino está escondido. Não o confunde nunca com Deus e não
o separa nunca de Deus.

   


«Ela olhava para o alto e eu olhava nela»,
escreve Dante falando de Beatriz. Nisso reside o supremo segredo do
amor humano; beber a pureza divina nos olhares, na alma, no dom de uma
criatura.

   

«Sentir como o ser
sagrado freme no ser querido», assim definia magnificamente Vitor Hugo, o
grande amor. Num tal grau de amor, o ser amado é verdadeiramente
insubstituível: dado por Deus, ele é único como Deus; um mistério inesgotável
habita nele. Os verdadeiros esposos conservam eternamente almas de noivos; a
posse aprofunda para eles a virgindade. Quanto mais são um para o outro, mais
fome têm de ser um para o outro. É uma maneira sagrada de possuir as coisas
que, em vez de matar o desejo, como na satisfação da carne, o exalta e
transfigura. Aquele que beber desta água terá ainda sede… Como poderia
estiolar-se o amor dos esposos, se eles foram criados e unidos para dar Deus
um ao outro? A vida dos dois desenvolve-se e torna-se infinita numa oração
única.

 

(Gustave Thibon, O Que Deus Uniu, Editorial
Aster Ltda., Lisboa 1956)

 


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Notas:

[1] [N. da P.] O autor refere-se ao interior da França.

[2] Aliás, seria mais verídico falar nestes casos, de
casamento por tradição em vez de casamento de conveniência.

[3] Falo aqui tanto para o homem como
para a mulher. Se a mulher é mais espontaneamente fiel a um ser único,
deve-se isso não à sua vida instintiva como tal, mas à integração, nela
melhor conseguida que no homem, desta vida instintiva no amor.

[4] Não vou estender-me aqui sobre o
problema do amor platônico. Ele é muito normal na época da puberdade, e mais
na mulher que no homem. Quando demasiado prolongado ou demasiado exclusivo,
tenho-o por uma compensação de qualidade inferior. De todos os modos, não
poderia existir normalmente no casamento. A castidade e a própria
continência conjugais nada têm que ver com esse pseudo-ideal, com essa
travessura irrealista.

[5] É trágico e prova até que ponto se corrompeu o amor
dos sexos na humanidade o fato de muitos homens só poderem amar mulheres
deste gênero. Os desprezos e os enganos alimentam a sua paixão e esta
atrofia-se quando já não tem motivos para duvidar do ser amado. Muitas
mulheres perderam o amor do seu amante ou do seu esposo por terem dado
provas demasiado claras do seu afeto e da sua fidelidade.


[6]
Objetar-me-ão serem as vocações religiosas mais
numerosas entre as mulheres; mas isto é totalmente diferente. Uma mulher que
sacrifica a sua missão junto de seres querido para se dar a Deus, vê nesse
Deus a pessoa, o

«
Tu»

mais
íntimo e concreto que se pode conceber.


[7] ‘A maior
parte das loucuras não passam de tolices’ (Max Jacob)

 

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